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Crônica: Você não precisa abraçar o mundo

POR JULIO HERMANN

“Deito no sofá em uma noite de sábado qualquer e encaro os pés no outro extremo do meu corpo, estratégicamente cruzados para se aquecerem sozinhos. Acabei de dizer pra uns amigos que hoje não vai dar, eu tenho outros planos, já tenho outra coisa marcada comigo mesmo, uma conversa particular dialogada no silêncio, feita para deslocar cada uma das coisas que eu sinto pro seu devido lugar. Não que a noite seria ruim, só seria igual. Eu podia prever as conversas interessantes e o tanto de gente que eu iria reencontrar em mais uma balada qualquer, mas não é disso o que eu preciso agora.

Uma das coisas que eu entendi depois de um tempo é que a gente não precisa se forçar a nada pra se sentir um pouco mais feliz. Felicidade particular é um processo. Talvez meus amigos não entendam, mas eu não fiquei em casa pra afogar mágoa nenhuma na fossa, não resolvi trocar a música alta pelo silêncio da minha sala porque alguma coisa lá fora tem me machucado, eu só tentei ser um pouco mais honesto comigo mesmo hoje. Eu entendo que as conversas efemêras e os olhares trocados com completos desconhecidos são importantes nesse processo de conhecer o mundo e gente nova, mas não é disso que eu preciso hoje. Não é por alguma frustração ou amor antigo, é por mim.

Alguns dizem que eu tô perdendo meu tempo ficando em casa fazendo porcaria nenhuma no único mísero dia de folga da semana, mas por quê? Nossa geração se prende tanto na ideia de que precisamos nos abraçar em cada possibilidade e aproveitar o mundo inteiro o tempo todo, como se o contrário disso fosse estagnar a vida em uma inércia dolorosa demais pra se carregar sozinho. Como se isso fosse possível e a gente não deixasse coisa nenhuma pra trás, não se deixasse pra trás enquanto se preocupa demais com as coisas todas em volta que nunca foram feitas pra falar sobre a gente.

Os tempos são difíceis para os sonhadores, eu sei, são complicados demais pra mim e pra todo mundo que jurou que a felicidade particular estava escondida no som alto e no tanto de gente tentando se encontrar em uma balada qualquer – e talvez esteja mesmo. Não os julgo, semana passada eu mesmo jurei que a minha estava numa casa noturna qualquer. Talvez os meus amigos até estejam certos ao dizer que o melhor que eu podia fazer hoje não era ficar em casa, quase que vivendo em cárcere, mas eu ainda acho que esse momento é necessário. Eu tô precisando de verdade colocar cada uma das coisas da minha vida em caixas, racionalizar cada pequena parte antes de ir pra algum lugar e pensar em levar alguém comigo. Sair por aí sem perspectiva de si mesmo pode até ser poético, mas desgasta a gente depois de um tempo.

A gente precisa abraçar a si mesmos antes de querer abraçar o mundo.

Talvez eu me encontre hoje, talvez meu pensamento não ultrapasse o campo de visão e eu só enxergue os meus pés. Mas tá tudo bem, eu precisava disso. Tá tudo bem pra mim e pro monte de gente do lado de fora da minha porta que resolveu ficar em casa consigo mesmo. Às vezes a gente precisa olhar um pouco pra dentro de si mesmo pra ver se entende que a gente não pode abraçar o mundo o tempo inteiro, e que perceber isso frusta um pouco. Esse sentimento, no entanto, vai embora quando percebemos que o mundo pode ser bem mais interessante se a gente escolher uma maneira mais bonita de contar essa história”.

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Julio Hermann

Sobre o autor
Gaúcho, escritor e jornalista, Julio Hermann escreve sobre cada pequena coisa que a gente sente e não diz, todo pequeno detalhe que guardamos no peito com medo de se expor demais para as pessoas lá fora. Na literatura, publica ao lado de alguns dos mais importantes jovens autores do Brasil. Produz conteúdo literário, informativo e institucional, ministra palestras e acredita que todo rosto pode contar uma história interessante, desde que resolva conta-la de peito aberto! Conheça mais do autor no site: https://juliohermann.com/

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